COISAS DE FAMIGLIA.

Coisas de Famiglia

COISAS DE FAMIGLIA.

Por Lucas Machado

Ilustração: Lucas Diniz – Estúdio Vorko

“Quem tem medo morre todos os dias. Aquele que não tem medo morre só uma vez.”
Paolo Borsellino, um dos juízes da Operação Mãos Limpas de processos judiciais contra a máfia italiana


A cidade de Nápoles, na Itália, não é mais só conhecida por ser a capital mundial da pizza ou por ter uma das maiores taxas de pobreza do continente europeu. Um dos responsáveis por isso é o jornalista Roberto Saviano, autor do livro ‘Gomorra’. O escritor, nascido em 1979, em Nápoles, se infiltrou em uma das maiores organizações criminosas do mundo narrando com detalhes que impressionariam qualquer 007, como funciona“O Sistema”, nome dado aos negócios que envolvem a máfia napolitana, denominada originalmente de Camorra.
O livro foi publicado em mais de cem países. Na Itália, está disparado entre as obras literárias mais lidas dos últimos anos. Levada para as telas   do cinema, a história foi campeã de bilheteria. O sucesso foi tão grande que Saviano começou a sofrer ameaças de morte. Teve uma bomba instalada em baixo da lataria do seu carro, descoberta por sorte, antes do motor ser acionado. Apesar de estar sob escolta desde 2006 e viver um “big brother”, com câmeras instaladas por todos os lados, por motivos de segurança, o escritor teve que deixar sua cidade e o jornal onde trabalhava, o ‘La Repubblica’, um dos periódicos de maior circulação na Itália.
Reza a lenda que a criminalidade da matriz mafiosa teve suas origens no sul da Itália, na região da Sicília, na era medieval. Mas é importante deixar bem claro que quadrilhas e bandos, terrorismos e máfia são coisas diferentes. As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), com seus cartéis e taxas revolucionárias, o Comando Vermelho e os “mano” do Primeiro Comando da Capital (PCC), com suas super correntes de prata, não são considerados máfia e, sim, organizações criminosas, principalmente pela concentração em apenas um “business”.
As verdadeiras máfias italianas, como a Camorra, por exemplo, estão inseridas em toda a teia social, empregam as camadas mais pobres e fazem negócio com os ricos. Seu organograma tem, em média, 110 famílias e 700 filiados e um formato de pirâmide. A hierarquia é mais ou menos assim: primeiro o Don (chefe); depois os conselheiros, tenentes e soldados, que fazem trabalho sujo; mais abaixo, os agregados, que fazem parte da folha de pagamentos: juízes, promotores, primeiro ministro, euro deputados, profissionais do sexo, comerciantes e matadores de aluguel.
O grande diferencial é que os mafiosos não têm ideologia, exceto a do lucro a qualquer preço, através das vantagens indevidas, independentemente do que aconteça. No caso da organização napolitana, algumas características são bem marcantes, além de todo o glamour. Há uma diversidade no portfólio de atuação: depósitos de lixo químico, operações sinistras no porto de Nápoles, tráfico de drogas e órgãos humanos, lavagem de dinheiro, prostituição, jogos clandestinos, extorsão, entre outros. E, por fim, o fato de serem muito antigas e controladas por famílias, que passam o poder de geração para geração.
Em meados dos anos 1980, teve início uma das maiores ofensivas contra a máfia na Itália. Chamada de Operação Mãos Limpas, tomou conta de todo o país, a princípio para apurar um escândalo que envolvia tráfico de influências da loja maçônica P-2 e a falência fraudulenta do Banco Ambrosiano, ligado ao Vaticano. Sobrou até para o magnata Silvio Berlusconi e a Fininvest, grupo que controla suas empresas. Como primeiro ministro, Berlusconi está sendo investigado por compra de sentenças. Caso seja real- mente culpado, irá influenciar diretamente no sonho de ser reeleito primeiro ministro da Itália.
Os juízes Paolo Borsellino e Giovanni Falcone, delatores dos processos anti máfia, foram mortos brutalmente como queima de arquivo. O que me faz pensar: será que se realmente a “famiglia Camorra” estivesse preocupada com o jornalista Roberto Saviano, já não o teria matado, como fez com vários outros? Isso só os próximos anos irão nos dizer. Enquanto isso, o tempo passa, o tempo voa e o digníssimo premier Silvio Berlusconi e suas empresas continuam numa boa. O “papito Berlusca” pode até não jogar com a camisa 10 do seu time, o Milan, mas, nas festinhas na sua mansão, anda fazendo só gol de placa.

Guerreiro do Asfalto

Fonte:http://www.destrinchando.com.br/coisas-de-famiglia/